Não me digas que lamentas.

Fitei-te pela primeira (última) vez, limpando as lágrimas e revendo na minha mente todo o tempo desperdiçado em conversas, todas as vezes em que te ajudei. Falaste a rir que sempre soubeste que nutria algo por ti e que apenas tinhas andado a evitar o inevitável, porque ainda necessitavas da minha ajuda. Engoli em seco, enquanto falaste. Queria dar-te uma chapada com força ou apenas gritar-te um “vai-te foder”, mas nem isso consegui. A minha boca não se abriu vez alguma, para dizer alguma coisa. Ouvi-te até ao fim, em silêncio. Queria que o meu cérebro se lembrasse de cada palavra, para sempre, para que me pudesse relembrar o quão iludida e burra tinha sido por tanto tempo e para não me apaixonar por mais homens egocêntricos como tu.

Enquanto chorava, não disseste palavras amáveis. Continuaste o teu discurso de “homem que sabe tudo”, quando nada sabe, de forma direta e objetiva. Odiei-te, mas odiei-me mais por ter-me permitido ser vulnerável à tua frente. Contudo, sempre mexeste comigo, a pontos de chorar de raiva, por não conseguir controlar a repulsa e os ciúmes.

És uma mulher de negócios agora e terás quem quiseres. Gargalhei alto. Foi uma piada certo? Diz-me que sim. Murmurei-te por entre soluços que foste a maior desilusão da minha vida, que se me tinhas tirado de um poço, tinhas-me metido noutro ainda maior. Levantaste-te dizendo que o que tinhas a fazer estava feito. Não olhaste sequer para trás. Não houve pena, mas disso sempre soube, não é? Nunca foste homem de ter pena de ninguém. E no amor não se deve ter pena. Não devemos ficar com alguém que não queremos apenas por causa disso.

Mais tarde, no mesmo café, vi-te com uma mulher. Claramente, bem diferente de mim. Os assuntos eram infantis da parte dela e tu passaste-te. Sentei-me sozinha e assim que ela se foi embora viste-me. Andas-te até mim e antes de falares sequer, antecipei-me. Não me digas que lamentas. Olhaste-me surpreso. Pensavas que não ia conseguir dar a volta por cima? Levantei-me, assim que a minha empregada me chamou. Ficaste ainda mais surpreendido.

Fizeste-me ter raiva por muito tempo, mas despejei-a em trabalho árduo e comprei vários cafés. Provavelmente, até és cliente assíduo em alguns deles, dando-me lucro. Quando uma mulher forte e poderosa como eu fica apaixonada e é negada, ela não fica depressiva, mas sim empenha-se para ser ainda melhor, fazendo com que a pessoa por quem se apaixonou se arrependa. E é isto que sentes: arrependimento. Evolui ainda mais sem ti. Não eras o único capaz de me passar conhecimento. Sozinha consegui conquistar tudo, já tu ficaste sem a minha ajuda. Agora resta-te apenas o sabor amargo da derrota na tua boca. Não me digas que lamentas tudo isso. Seria uma mentira fútil, tendo em conta as palavras que me disseste tão ciente. Cada ação gera uma consequência, a tua (felizmente) é má. Olha, não te esqueças: podes ter quem quiseres, menos uma mulher como eu.

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Doeu, mas superei

Aprendi desde cedo a perder. Por mais que fizesse, as pessoas sempre iam embora. Doía demais, simplesmente não poder pará-las, enquanto as via afastar-se de mim. Por mais que gritasse por elas, chorasse e até implorasse para que ficassem, não era essa a vontade delas. A partir daí, tive de começar a enfrentar essa dor, com mais frequência. Parecia que afugentava as pessoas de mim, apenas com o olhar.

Quando te sentaste ao meu lado, pensei que finalmente iria ser diferente. E foi, até um certo ponto. Até tudo desmoronar, até à primeira discussão, à primeira fuga de casa. Os acontecimentos foram-nos separando e não relacionamento que aguente firme com um só coração a bater, a lutar para que os dois fiquem juntos. Foi aí que decidiste abandonar o barco.

Foram noites em claro, em que a única coisa que se ouvia na casa inteira era o meu choro. As lágrimas terminaram por secar, acabei por me levantar e seguir. Quase tudo me lembrava do quanto tínhamos sido tanto um para o outro. Ainda com tantas memórias boas, a maneira como tinha desandando sobreponha-se sempre.

Doeu, mas superei. Não foi preciso odiar-te, nem esquecer-te. Foi necessário apenas uma grande dose de amor próprio, de metas por cumprir, de várias horas de trabalho exaustivo e muitas gargalhadas com os amigos. A ferida que abriste, curou mais rápido do que pensava.

Aprendi que há dores que não devem ser vividas por muito tempo. Não devemos alimentá-las com memórias ou sentimentos, para que não durem mais do que o aceitável. Se nos esquecermos que dói, acabará por não doer mais. Há que superar o que não nos faz bem. E é por isso que não devemos alimentar o que acabará por nos destruir. Não devemos dar tanta importância a uma ferida, especialmente quando esta é devido a outra pessoa. Sempre irá doer, porém temos a opção de definir um limite. Quando atingirem esse limite, superam na totalidade. Qualquer pessoa pode seguir e superar tudo, sozinha.

Sem sentimentos (1)

No fim, eu nunca deixei de ser uma filha da puta sem sentimentos. Que espécie de humana sou eu que faz os outros sofrerem, quando sei o quanto dói? Mas que espécie de humanos são eles que erram vezes sem conta, são perdoados infinitas vezes, passam-me por cima e passam de novo e no fim, eu consigo sempre desculpá-los, ajudá-los?!

Chega ao ponto em que tudo fere, tudo estremece e dói cá dentro. O ar se torna impossível de engolir. A vida, até então empurrada com a barriga, começa a ganhar força e a empurrar-me para trás. Chega o dia em que passam-me por cima e não me levanto como esperavam. Há quem diga “ainda hoje se levanta”, mas já cá não estarei para infelicidade de muitas pessoas.

Eu aguento pancadas. Estaladas, socos, tudo o que quiserem dar-me. Eu posso ser uma filha da puta sem sentimentos como dizem, mas para isso precisava não ter um coração e sim uma máquina em vez dele. Sinto tudo também. Eu magoo, porém quando coloco-me na pele da outra pessoa, dói-me muito mais.

As feridas abertas nunca curaram totalmente, porque no mesmo sítio das anteriores, novas foram sempre dando o ar da sua graça. Acho uma piada quando chamam-me deste título. Sinto-me forte, invencível, totalmente o oposto que sou. Sou apenas mais uma criança que em tempos foi mimada, deixou de o ser e levou uns bons abanões da vida e ainda assim, ainda que cambaleando com paredes de apoio, seguiu firme.

Um dia tudo cansa. Não é porque te magoei agora que sou a pior pessoa do mundo. Sou de carne e osso, tenho um coração que bombeia sangue e sente – sente tanto como tu e tem mais feridas do que buracos nas estradas –, sentimentos, consciência, erro também. Porra, porque sou a única que não deixa de se preocupar com a dor dos outros?! A minha não é importante?! Se eu não me importasse, o teu título estaria certo, porém ainda que possa ter sentimentos e que esteja a doer pra caralho, eu aceito. Aceito o título, a forma como me olhas de lado, a forma como me atacas e passas por cima pela milésima vez nestes últimos 15 dias. Podem continuar a atropelar-me, a festejar, até esta merda falhar.

Eu magoei-te e por isso não presto, não mereço o caminho por onde ando, não tenho consciência e nem sei o que é ser magoada. Obrigada por me ensinares a não ser humana.

#ela (8)

Tu sempre soubeste desde o início que ela era demasiado para ti. Nunca te questionaste antes do porquê de ter-te escolhido a ti e não a outro, mas atualmente, esta questão (e outras tantas) vagueiam pela tua mente. Agora sentes um vazio inigualável, irreparável, impossível de encher com algo, com alguém. Depois dela, todas as outras irão saber-te a pouco. Porquê? Porque ela é doce e amarga ao mesmo tempo, porque tem o dom de encantar todos os que a rodeiam, mas não faz por ser o centro de atenções sempre, porque tudo o que fala e faz tem uma intenção maior, mais forte, mais sábia.

Ela escolheu-te porque tu de homem não tinhas nada e talvez ainda não tenhas. Ensinou-te a estar socialmente, a vestires-te melhor, ajudou-te a acreditar que irias conseguir tudo o que desejavas e ter uma vida melhor, deu-te prazer e no fim, deixou a sua marca em ti. Tu não consegues esquecê-la. E, provavelmente, nunca irás conseguir. A sua passagem pela tua vida pode até parecer-te que durou muito pouco, mas foi o suficiente. O suficiente para entenderes e aprenderes algumas noções da vida. Talvez penses que atualmente ela mudou, porém apenas evoluiu mais um pouco.

Tu nunca foste uma sorte para ela. O sortudo foste tu. Aprendeste mais, ganhaste mais. Contigo nada aprendeu, apenas aperfeiçoou os seus dotes, os seus ensinamentos.

Na tua mente e no teu coração, ela irá viver para sempre, quando a sua passagem pela tua vida foi apenas um pedacinho do infinito. Pensavas que seria eterno, que iria durar uma vida toda, quando jamais isso poderia acontecer. Qualquer um pode aprender e aperfeiçoar a maneira como age e é, mas se essa pessoa não quiser aprender (neste caso, tu), não há nada que se consiga fazer. E foi por isto que ela deu por concluído a sua passagem pela tua vida.

Entende que tudo o que aprendeste, irá servir-te imenso se souberes usar nas situações certas, com as pessoas corretas. Ela sabe que irás olhar para as outras mulheres e não vais ver algo que queiras, pois tanto o seu corpo como a sua mente são inigualáveis. Não há quem seja igual a si. E tu não irás conseguir mudar ninguém ao ponto de teres uma cópia sua.

Provavelmente, se tivesses aproveitado mais a sua estadia, estivesses mais satisfeito agora. Não estarias feito doido à espera de encontrar o seu rosto, numa das raparigas com quem fodes ocasionalmente, não estarias à espera que alguém te olhasse como ela, que tivesse paciência para ouvir as tuas reclamações sobre o trabalho ou até que aguentasse o teu pessimismo. Irás sempre buscar alguém que se pareça com ela. Tentas contentar-te em vão. Procuras e não achas, porque procuras mal, porque procuras com fome e não com sabedoria. A fome que sentes irá sempre ser a tua maior perdição. Nunca saberás dar valor a uma mulher se ela não te der o que esperas na cama. E é nisto, e em tantas outras coisas, que falhaste e irás sempre falhar. Uma mulher é mais do que buracos, mamas e rabo. Se a tratas desta forma, não esperes que alguém te trate melhor. Irá tratar-te de igual medida. Sem mais, sem menos. Por isso, tudo irá saber-te a pouco.

Agora pensas em procurá-la, tentar pedir-lhe desculpa por todos os erros, quando no fundo, estás perdoado e sabes bem disso. Se a magoaste, perdoou-te no exato segundo. Se pensasses bem, entenderias que o jogo finalmente começou e estás sozinho nesta grande batalha. Ela preparou-te para isto, só que tu não aprendeste nada. A culpa não é dela, é tua. Agora terás de viver com um vazio, com uma ferida que não fecha, com fodas que não te satisfazem, com pessoas que te sabem a pouco. Entende que tudo o que sentiste, não voltarás a sentir. Podes procurar, encontrá-la por um acaso, porém irá virar-te costas e seguir dona de si. Esperavas um sorriso, um abraço, tomar um café? Quando a sua passagem termina, o seu trabalho está concluído e afasta-se para sempre. Aprende a lidar com isso rapaz, talvez um dia te consigas comportar como o homem que deverias ser.

Amigos que dão a mão

Anoitece devagar. O ar quente de verão ainda bate com força no meu rosto, o vento leva para trás o cabelo que insistente tenta tapar-me os olhos. Nem sei como conseguiste tirar-me de casa, mas cá estou. Fiz 32km de carro. Sabes o quanto detesto conduzir de noite, porém fui depois de muita insistência da tua parte.

Já estavas à minha espera na porta da tua casa. Seguimos de mochila nas costas para um trio que há muito me falavas. Nunca fui pessoa de fazer este tipo de coisas. Trepar e alturas é-me algo impensável.

Começamos a andar. A subir. A descer. Avisaste-me de que em breve teria de trepar para conseguirmos chegar ao final: à maravilhosa vista que dava para a cidade. Engoli em seco. Chegando ao primeiro sítio, agarraste-me na mão e ajudaste-me a trepar. Assim continuamos até ao fim. Não fora a primeira vez em que me seguravas a mão. Muitas vezes, ligava-te de madrugada e chorava sem parar. Davas-me a mão, ainda que não fisicamente, nessas horas.

Hoje sei que há amigos que dão a mão, sem nada pedir em troca, sem ser algo mais que amizade. E é por isso que te adoro e continuo a achar que fazes-me falta. Muita. Todos os dias. E sei que às vezes levo tempo para responder-te, quando me retribuis no exato minuto, porém não é por mal e tu sabes, é apenas porque esqueço-me ou porque estou a escrever, como neste momento.

Escolhi-te

De todas as pessoas escolhi-te. Quando me convidavam para sair, preferia não aceitar o convite apenas para poder estar online e conversar contigo. Sempre foste a minha primeira escolha, quando eu apenas fui um escape, um pneu de socorro.

Deixei pessoas para trás, coisas que deveriam ter sido feitas, porque naqueles momentos em questão precisavas do meu apoio, precisavas de mim. Escolhi-te em primeiro, em todas as ocasiões, porque, obviamente, eras o único que me importava, aquele que amava cegamente. Escolhi-te, ainda que sentisse que esta escolha não era de todo recíproca. Escolhi-te, mesmo sabendo que no fundo, estava a magoar-me, consecutivamente. Noutro tempo, dir-te-ia que não me importava de sofrer por tua causa. Para mim sempre foste o certo, o mais parecido comigo, ainda que tão diferentes a nível zodíaco. Opostos deveriam atrair-se. Em certa parte, conclui-se isso mesmo, mas na outra grande parte, sabemos que há mais pormenores.

Não digo que foste um erro. Não o poderia e não consigo dizê-lo, por mais que queira, por mais que me faça sentido dizê-lo. Tudo em mim gritou por ti. Posso tentar esquecer, mentir e dizer que nada se passou e estaria a mentir-me a mim mesma, apenas. Não pretendo esquecer-te e por mais que quisesse, não o conseguiria. Foste demasiado para mim. Diria até que foste tudo, por imenso tempo. Vivia em tua função para tudo. Não me permitia viver por estar à espera de mensagens que nunca vinham. Ora porque adormeceste ora por outra razão qualquer, que na altura não me dizias.

Questiono-me apenas o porquê de nunca teres dito o que verdadeiramente sentias. Teria sido mais fácil, se desde o começo tivesses colocando os pontos nos i’s, esclarecido o que era para ti (que não era recíproco). E ainda que me dissesses isso, também não seria capaz de perceber o porquê de me manteres só para ti, por todo este tempo. Era a tua segunda opção, aquela que te dava o que precisavas quando a tua namorada não estava nem aí para ti, aquela que estava caída por ti e que faria o que pedisses, sem nem questionar ou hesitar.

Tiveste-me por inteiro e tive-te pela metade – se é que se pode quantificar desta forma. Amei-te mais do que deveria. Arriscaria dizer que amei pelos dois, porém não é de todo possível. Nunca fui a tua primeira opção e nunca questionaste como ficaria ao saber a verdade. E é por isso que não consigo esquecer-te: pela dor que me causaste, pela dor que sinto. Só não digas que nunca foste a minha escolha, porque sempre o foste…

Excesso de futuro

Ela vai atacar-te quando menos esperares. No momento mais feliz da tua vida, no mais infeliz, naquele dia em que tinha tudo para dar certo. Ela vem de rompante, destruindo tudo aquilo que vê: pensamentos, sentimentos. Tudo. Até não restar mais nada. Até chorares desesperadamente, abraçada aos teus joelhos, sem saber o que poderá fazê-la parar. Por vezes, irá passar-te pela cabeça o porquê de estar a acontecer esse ataque de pânico, nesse momento. Não há motivo. Tu não conseguiste controlar o bombardeamento de pensamentos e sensações, chamando assim, sem que desses por ti, a tão querida ansiedade.

A ansiedade é excesso de futuro. Todos os pensamentos que tens sobre o que vais fazer amanhã ou no minuto seguinte, fazem com que comeces a pensar excessivamente, levando a tua mente à exaustão e posteriormente a um ataque de pânico, provocado pela ansiedade. É aquele suar frio e incontrolável, as mãos e pernas trêmulas, o medo incessante de falhar e choro compulsivo.

Naqueles curtos minutos que se parecem com uma eternidade, nada e tudo te passará pela cabeça. Não conseguirás pará-la apenas respirando fundo, ainda que ajude. As palavras reconfortantes de alguém, também não irão surtir nenhum efeito. Restará que esperes ou que apenas te entregues por completo. Irá passar. O bom das coisas ruins é que elas sempre terminam.

Saber controlar a ansiedade é treinar dia após dia, sem saber com o que contar. É como se tivesses de estudar um livro em branco. Podes preenchê-lo com todos os pensamentos que tiveste durante uma crise e algo que tenha-te feito relaxar. Há terapias. Necessariamente, não é obrigatório recorrer a um terapeuta. Há exercícios que fazemos ocasionalmente ou todos os dias, que nos poderão ajudar imenso. Há quem escreva, medite, ouça música, exercite, entre outras atividades, de modo a ocupar a mente.

Não há nenhum aviso, porém há sintomas que te darão o aviso de uma possível crise. Perdes o controle dos pensamentos rápidos e consistentes, começas a suar, a perder-te no que estás a fazer e o teu batimento cardíaco acelera. Aquando destes sintomas age rapidamente e faz a tua terapia. Convicta, sem desesperar, respirando fundo, diversas vezes.

Nas primeiras tentativas, isto poderá falhar. Uma série de tentativas fará com que os acertos comecem a ser maiores e as crises possam ficar controladas. Não haverá ataque de pânico e sentimento de impotência ao conseguir controlar um. É um treino. Há que treinar a mente para todos os possíveis bombardeamentos, para que esta esteja alerta a qualquer indício e aja rápido e eficaz.

No final, não irás esperar que a ansiedade chegue, pois conseguirás agir antes da mesma começar. Toma tempo, mas numa geração onde tudo é feito à pressa e as doenças mentais surgem, constantemente, como se de um vírus se tratassem, há que arranjar maneira de curar, sem medicamentos, o problema mais comum da juventude doentia que finge demência quanto a estes assuntos. E neste caso, será necessário muita paciência e treino.